
Dentre os artistas que povoam a memória afetiva da minha infância, certamente Michael Jackson era o maior deles. A morte do rei do pop trouxe consigo uma avalanche de lembranças dos meus tempos de criança e adolescente.
Sou de uma geração de moleques presepeiros que adorava imitar a dança do artista nas festas de família. Não pensava duas vezes na hora de deslizar andando de costas, num “moonwalk” , girar o corpo sobre o próprio eixo e depois, com um braço esticado pra cima e a mão do outro braço segurando o saco, soltar o famoso grito “uuuuhu”. Já até fui expulso de um trabalho escolar por causa disso, na 6ª série. A apresentação era no palco do auditório e, empolgado com a quantidade de gente assistindo, decidi fazer estes movimentos. Era um trabalho de religião que acabei ficando sem nota e só passei de ano após fazer prova de recuperação. Todo por causa da “perversão” – palavra utilizada pelo professor William para definir o meu ato maiqueljequissiano.
Não deixei passar a oportunidade de fazer parte de um clipe do Michael Jackson, ainda que virtualmente. Ano passado a gravadora lançou um site promocional dos 25 anos do álbum Thriller e quem quisesse enviava fotos que eram processadas por um aplicativo especial fazendo com que a pessoa fosse inserida literalmente no vídeo. Veja como ficou a minha participação:
http://www.youtube.com/watch?v=kVvXE4q7nwU
Sou fã das suas canções, lamento até hoje por não ter condições financeiras para assistir a um dos shows dele no Brasil na década de 90. Comecei a gostar de videoclipes e da MTV por causa das megaproduções que o rei do pop fazia. Um dos meus jogos favoritos de Mega Drive era Moonwalker, protagonizado pela estrela-maior do show business mundial e nos álbuns de Michael Jackson figuram muitas das canções que formaram meu caráter.

Porém, de todas as lembranças, a mais marcante remete à primeira vez em que vi, ainda criança, “Ben, o rato assassino” (1972), na década de 80. Neste filme “um garoto solitário, que não recebe atenção dos pais, torna-se amigo de um rato a quem passa a chamar de Ben. Ocorre que o animal é também o líder de um bando de ratos assassinos que matam humanos e deixam a cidade em estado de alerta. Quando a polícia consegue matar os roedores, o garoto mergulha numa tristeza profunda. Até o dia em que descobre que seu amigo Ben continua vivo”. Lembro de ter chorado copiosamente junto com o protagonista na sequência final do filme, onde a canção de Michael fecha brilhantemente a obra. Veja a cena:
http://www.youtube.com/watch?v=uAJV4p0aet4
Michael Jackson merece todo o respeito por ter chegado onde chegou. As excentricidades que fizeram dele a “Geni” principal das “pedras jogadas” pela imprensa sensacionalista e pela opinião pública – eu me incluo dentre os críticos – deveriam ser reavaliadas, por se tratar de sequelas em alguém que pagou um preço alto demais pelo sucesso, tendo abdicado de sua infância. Não nos cabe mais julgar seus atos, devemos agora tentar entendê-los. Agora que o artista virou mito, a história corrigirá as injustiças. Mais importante é saber que sua obra é bem maior do que qualquer um desses maldafados episódios.
Eu ainda não acredito que ele nos deixou. Acho que Michael, assim como Elvis, não morreu. Apenas cansou dessa vida pública e decidiu se recolher num país calmo e distante de toda badalação. De lá ele lê em blogs, twitters, comunidades do Orkut e sites internacionais as homenagens ao redor do mundo e os pedidos de desculpa que ele deveria ter recebido de corpo presente.
Se ele morreu, o que acho pouco provável, chegou ao céu deslizando de costas e quando chegou na frente do Criador, girou o corpo sobre o próprio eixo e depois, com um braço esticado pra cima e a mão do outro braço segurando o saco, soltou o famoso grito “uuuuhu”. Deus, São Pedro e todos os santos aplaudiram-no e deram boas vindas a um Michael pretinho e ainda criança, que finalmente viverá sua infância no paraíso.






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