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18:37 - sex 10 setembro, 2010 |  RSS:
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Barão!

Barão! Assim me chamava Mestre Pedro, meu avô materno. Era sua maneira de elogiar, ironicamente, o primeiro neto nascido na capital a morar junto com ele. Velho sapateiro de Abaetetuba, foi trazido à Belém para acompanhar as ambições dos filhos e por aqui fez o final de sua vida.

Nunca foi rico em dinheiro e o pouco que tinha investia em educação, sempre dizendo que a única herança possível de ser deixada era esta, afinal de contas ninguém poderia roubá-la. Seu rigor era tanto que impunha respeito em todos os momentos, ninguém ousava contradizê-lo, palavrão era uma heresia punível à moda antiga.

Ante a mesa, reverência maior, em se tratando de uma criação que não permitia leitura, homens de chapéu ou sem camisa durante o solene ato do comer, principalmente nos sagrados almoços de domingo. E num encontro desses, há muito tempo atrás, estava boa parte da família reunida para almoçar com meus avós quando aconteceu o que vou os relatar.

Sentava-se Mestre Pedro na cabeceira, com os outros parentes ao seu redor. Apesar da minha pouca idade eu já sabia me servir direitinho, mas não alcançava o recipiente com arroz. Munido de toda gentileza a qual fui educado, humildemente pedi:

- Vovô, o senhor pode me passar o arroz, por favor?

Apesar de rígido, meu avô era bem humorado e sempre que podia tirava alguma brincadeirinha no intuito de obter um sorriso de seus entes queridos, e assim fingiu não ter ouvido meu pedido e sinalizou a todos para que me ignorassem e afastou de mim a vasilha ainda mais. Sem eu perceber a armação, repeti:

- Vovô, vovô! O senhor pode me passar o arroz?

Eu não notei, mas minhas tias já pareciam atônitas com a situação. Não sabiam o limite entre o gracejo e o aborrecimento. Já temiam pelo que viria a acontecer. Meu avô permaneceu almoçando e eu repeti num tom um pouco mais alto e olhando sério:

- O arroz… POR FA-VOR!

Já era visível a aflição no semblante da avó ao ver minha inquietude, mas dos Pedros, quem mandava na mesa era o ancião e não o guri, por isso nada fez. Mamãe mal conseguia segurar um risinho nervoso mas ainda seguia as ordens de seu pai. Até que, numa explosão de impaciência, levantei, fiquei em pé na cadeira e gritei apontado para a guarnição:

- Dá pra passar esse arroz, seu FILHO DA PUTA!

Pobre Pedro Henryque, será espancado e castigado! Se o pensamento dos presentes na ocasião fosse dito em voz alta, teríamos essa frase em uníssono ressoando na cozinha como em jogral. Eu morri de vergonha do que disse, mas meu avô não segurou as gargalhadas, passando-me o recipiente como se tivesse ouvido a piada mais engraçada do mundo com tudo voltando à normalidade.

Dessa história não lembro de nenhum detalhe, mas se a conto é por causa de relatos de minha tia. Ela fala que depois disso nunca mais meu avô foi o mesmo no que tange ao medo que os filhos tinham dele, passando a ser uma pessoa mais flexível. Eu ainda aprontei muito com a boa vontade deste grande homem.

Por outro lado, me recordo com muito carinho de suas últimas palavras a mim dirigidas antes de deixar essa vida, há dezessete anos atrás. Eu estava ajoelhado ao seu leito quando ele me puxou pra perto, me deu um abraço com as derradeiras forças que permitem uma despedida e falou bem baixinho para que só eu pudesse ouvir:

- Não fale mais palavrão, meu neto. Toda vez que você sentir vontade de dizer essas coisas feias, procure a menina mais bonita de onde você estiver e dê um beijo nela.

Posso dizer, vovô, que as circunstâncias da sociedade não permitiram que eu deixasse de falar palavras chulas, até porque precisamos delas de vez em quando, mas sempre que posso eu cumpro, com o maior prazer, a segunda parte de seu pedido.

Originalmente publicado em 10.09.2004

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