Por Danilo Marques*
Podem locupletar-se da folga, mas o façam respeitando a memória do cara. Pois com exceção da galera bíblica (o Nazareno com suas datas de nascimento [natal], morte [sexta-feira santa], ressurreição [domingo de páscoa] e das demais peripécias [pentecostes e corpus christi] e a mãe dele nas versões afro-mineirinha [N.Sa. de Aparecida] e uma versão que eu não conheço [N.Sa. de Conceição]), Joaquim José da Silva Xavier, vulgo Tiradentes, o mais importante dentista do arcadismo brasileiro, é a única criatura humana dentre as vivas e as mortas a abocanhar um dia não-útil neste país, data dedicada inteiramente à sua homenagem.
Assumamos como louvável tal constatação uma vez que o mártir da nossa independência das garras da coroa portuguesa, mesmo despossuído das habilidades natas de andar sobre águas e de ressuscitar os mortos, mesmo apesar de não ser filhinho de papai influente na esfera cósmica, e mesmo lutando contra a situação de não ser delegado da incumbência divina de manter misteriosos contatos de qualquer grau com anjos de anunciação, logrou êxito em virar nome de museu, teatro, time de futebol, rua, bairro, e até de cidade. Além do principal: obter legítimo sucesso em ser contemplado com um feriado nacional todinho dele e de mais ninguém.
Agora o que inquieta nossas almas prevaricadoras que adoram uma escapadinha do estudo e/ou trabalho é a angustiante demora entre o um surgimento de um herói feriadístico e outro. Transcorreram-se 1761 anos numa absoluta estiagem de mártires relevantes, entre a crucificação no Monte das Oliveiras (33 d.C.) e o enforcamento e esquartejamento no Rio de Janeiro (1792 d.C).
E por causa disso… é o seguinte, leitor: quebra um galhote pra nós? Seja você também um mártir! Aqui rememoramos e limitamos algumas condições para tal:
- Ter nome poético e/ou extenso;
- Ter alguns companheiros fiéis e somente um que seja improbo. Não chamá-los de apóstolos ou inconfidentes, selecione uma denominação inédita. Patrulheiros, confrades, migotinhos, ou o que convir;
- Ser destemido(a). Não dar uma de Prosdócimo ao imaginar torturas elaboradas e mortes bem doloridas. Ser condescendente com inimigos e traidores. Usar de palavriado impactante, corajoso e redentor primordialmente nas situações mais controversas;
- Solicitar ao seu respectivo carrasco que prossiga com sua malvadeza mesmo após a execução. Exigir criatividade do bandido: pra ser romântico é preciso ser original. Esquartejamento e incineração, ninguém merece;
- Manter cabelos compridos e soltos. Charme. Vê só o Mahatma Gandhi? Ficou sem feriado internacional provavelmente porque pelava a porra da cabeça. Vê o Kurt Cobain? Só se suicidou e já é quase motivo de holiday em Seattle;
- Essencialmente, não vir a falecer em datas que já sejam feriado. O contrário seria absolutamente patético. Ou então, fazer com que dissipem os registros do óbito, de tal forma que se tome não mais do que o suficiente conhecimento de que o ocorrido caiu “numa segunda quinta-feira de um mês qualquer”. Aí pra vingar a sua morte, a gente enforca a sexta-feira.
Mais algumas recomendações: se possível, não transforme só a apoteótica ida para o além em acontecimento fantástico. Procure ressuscitar aos olhos de algumas testemunhas, reencarne em curto período de tempo evidenciando provas disso e providencie a disseminação furtiva de algumas imagens talhadas em qualquer material de reduzida biodegradabilidade e que representem sua figura física pelos arredores de algumas comunidades ribeirinhas. Se assim puder, e caso seja factível iniciar sua jornada romanesca a partir de hoje pra compensar a lentidão dos poderes da República em oficializar feriados, estará propiciando aos brasileiros ainda desta geração (ou mesmo a cidadãos de outras nações) não apenas um, e sim diversos dias a mais de sombra, água fresca e de deliciosa vadiação no transcurso da exaustiva batalha anual pela vida.
Ajude-nos mesmo a conquistar a liberdade, ainda que tardia.
“Danilo Marques além de ser o mais antigo dentre os meus amigos (desde 1992), é engenheiro químico e durante mais de dois anos prestou serviços como “caseiro” em The Nowhere Land, publicando quinzenalmente textos no blog. Foi o pioneiro no ramo.”
Publicado originalmente em 21.04.2004






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